sábado, 24 de outubro de 2026
CIDADES

Campo Novo do Parecis ganha atenção em Mato Grosso pela história, agricultura e etnoturismo

Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, chama atenção pela combinação entre expansão agrícola, história ligada à Comissão Rondon, presença do povo Haliti-Paresi e potencial de etnoturismo.

Campo Novo do Parecis, no médio-norte de Mato Grosso, vem ganhando atenção por reunir características que ajudam a explicar a transformação do interior do Estado: uma história associada à expansão das linhas telegráficas e à passagem de Cândido Rondon, uma economia fortemente baseada na produção agrícola, a presença histórica do povo Haliti-Paresi e um conjunto de paisagens naturais que sustenta o crescimento do etnoturismo.

O município foi criado oficialmente em 4 de julho de 1988, pela Lei Estadual nº 5.315. Antes da emancipação, o território fazia parte de Diamantino e passou por um processo de ocupação mais intenso a partir da década de 1970, com a abertura de fazendas e a chegada de famílias migrantes, principalmente da Região Sul do país. (camponovodoparecis.mt.gov.br)

Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Campo Novo do Parecis tinha 45.899 habitantes e área territorial de 9.428,585 quilômetros quadrados. O município também registrou PIB per capita de R$ 172.492,49 em 2023, indicador que ajuda a dimensionar o peso da atividade econômica local, embora não represente a distribuição de renda entre os moradores. (ibge.gov.br)

Uma história ligada à expedição de Rondon

A trajetória de Campo Novo do Parecis está relacionada à presença do marechal Cândido Rondon em Mato Grosso. Em 1907, durante uma expedição em busca do rio Juruena, Rondon passou pela região, alcançou o rio Verde e seguiu em direção ao Salto Utiariti, nas proximidades do local onde o município seria formado posteriormente.

O território também foi alcançado pelos trabalhos de implantação das linhas telegráficas conduzidos no início do século 20. De acordo com registros históricos do IBGE e da Prefeitura, uma frente avançou para oeste, em direção a Utiariti e ao rio Juruena, enquanto outra seguiu para leste, rumo a Capanema e Ponte de Pedra. A instalação dessas estruturas integrou a região a um projeto mais amplo de comunicação e reconhecimento do interior brasileiro. (camponovodoparecis.mt.gov.br)

Em janeiro de 1914, o ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt passou diante do local durante uma viagem pela Amazônia realizada em companhia de Rondon. A passagem faz parte da memória histórica do município, mas não significa que Campo Novo do Parecis já estivesse formado como cidade naquele período. A ocupação urbana e produtiva ocorreria décadas mais tarde. (camponovodoparecis.mt.gov.br)

O surgimento da comunidade e a emancipação

A ocupação efetiva da área onde se encontra o município começou a se intensificar na década de 1970. Famílias vindas de estados sulistas instalaram-se em propriedades rurais e na localidade que se formava às margens da estrada entre Diamantino e Utiariti.

O núcleo inicial se estabeleceu em uma área conhecida pelo encontro das retas de Caitetu e Taquarinha. A localidade chegou a ser chamada de Campos Novos, nome que provocava confusão com a estação telegráfica de Rondon situada na região de Vilhena. Com o tempo, a denominação foi alterada para Campo Novo.

Em 1981, foram doados 293 hectares para a formação do patrimônio da futura cidade. O crescimento populacional e econômico, somado à distância de aproximadamente 300 quilômetros até Diamantino, fortaleceu o movimento pela autonomia administrativa. Em 1987, foi apresentado na Assembleia Legislativa de Mato Grosso o projeto que resultaria na criação do município no ano seguinte. (camponovodoparecis.mt.gov.br)

Agropecuária sustenta a economia

A agricultura é o principal eixo econômico de Campo Novo do Parecis. Documentos oficiais do município citam a produção de soja, milho, girassol, algodão, sorgo, amendoim e cana-de-açúcar, além da pecuária. O comércio, a prestação de serviços e a agroindústria também participam da economia local.

A combinação de grandes áreas agricultáveis, mecanização e integração com cadeias de comercialização transformou a paisagem e a dinâmica do município. Campo Novo do Parecis passou a ser associado à produção de grãos e ao chamado agronegócio do chapadão, em um processo semelhante ao observado em outras cidades do médio-norte de Mato Grosso.

O destaque econômico, porém, precisa ser analisado em conjunto com os desafios de municípios cuja atividade produtiva depende fortemente do setor primário. A agropecuária está sujeita a variações climáticas, preços internacionais, custos de insumos, condições de transporte e disponibilidade de armazenagem. Por isso, o crescimento agrícola não elimina a necessidade de diversificação econômica e de investimentos permanentes em serviços públicos, infraestrutura e qualificação profissional.

O perfil de produção também contribuiu para a expansão de atividades industriais e de serviços relacionadas ao campo. A Câmara Municipal registra que, em 1985, entrou em funcionamento a Destilaria Campo Novo, voltada à produção de álcool hidratado e descrita pela instituição como uma das maiores indústrias do segmento no Estado naquele período. (camponovodoparecis.mt.leg.br)

A presença Haliti-Paresi

O nome do município está ligado à Chapada dos Parecis e à presença histórica dos povos indígenas que ocupam a região. Entre eles estão os Haliti-Paresi, também identificados em registros históricos como Paresí. A cultura indígena é uma das dimensões centrais da identidade de Campo Novo do Parecis e aparece em manifestações culturais, roteiros turísticos, narrativas sobre o território e iniciativas de valorização das comunidades.

Essa presença não deve ser tratada apenas como elemento turístico. Ela está relacionada à história de ocupação do território, aos conhecimentos tradicionais, à relação com os rios e às práticas culturais transmitidas entre gerações. O reconhecimento desse patrimônio depende da participação das próprias comunidades e do respeito às regras estabelecidas para visitação, registro de imagens e circulação em áreas indígenas.

O município possui áreas e aldeias associadas ao povo Haliti-Paresi, além de rios e cachoeiras que integram a paisagem regional. Documentos municipais citam cursos d’água como os rios Sucuruína, do Sangue, Membeca, Verde, Sacre, Cravari e Papagaio. As informações também apontam a existência de áreas indígenas e de atividades relacionadas ao etnoturismo. (camponovodoparecis.mt.gov.br)

Etnoturismo amplia a visibilidade

Nos últimos anos, Campo Novo do Parecis passou a ser apresentado como um dos principais destinos de etnoturismo de Mato Grosso. A proposta combina contato com a natureza, visita a aldeias, trilhas, cachoeiras, gastronomia, artesanato e experiências conduzidas por integrantes das comunidades indígenas.

O turismo baseado na cultura Haliti-Paresi diferencia o município de destinos voltados exclusivamente a paisagens naturais. Nesse modelo, o visitante não procura apenas rios, quedas d’água ou áreas de cerrado, mas também informações sobre os modos de vida, a memória, as práticas culturais e a relação das comunidades com o território.

O desenvolvimento dessa atividade exige planejamento. A visitação precisa considerar limites ambientais, capacidade de atendimento, segurança, formação de guias, distribuição de renda e proteção do patrimônio cultural. Também é necessário que as informações divulgadas ao público sejam produzidas com participação das comunidades envolvidas, evitando a transformação de práticas tradicionais em simples atrações.

Em 2026, um projeto apoiado por convênio estadual previu ações para estruturar a comercialização do etnoturismo na Região Turística das Nascentes, incluindo rodadas de negócios, visitas técnicas, mostra cultural de aldeias Paresi-Haliti e a realização da Feira Internacional de Etnoturismo em Campo Novo do Parecis. O projeto identifica o município como referência estadual no segmento. (transp.sigcon.seplan.mt.gov.br)

Natureza e identidade regional

Campo Novo do Parecis está inserido em uma região marcada por chapadões, rios, áreas de cerrado e diferentes formações naturais. A combinação entre relevo, hidrografia e presença indígena cria condições para atividades de turismo de natureza e de experiência, desde que o acesso seja organizado e compatível com a preservação ambiental.

A divulgação turística oficial destaca cachoeiras, rios, trilhas e roteiros conduzidos em territórios indígenas. Entre os elementos que ajudam a compor a imagem do município estão as paisagens agrícolas, especialmente durante os períodos de florescimento do girassol, e a produção de grãos que marca a economia local. (turismo.camponovodoparecis.mt.gov.br)

Esse contraste entre a agricultura mecanizada e as áreas de valor ambiental e cultural é uma das marcas de Campo Novo do Parecis. De um lado, o município participa de cadeias produtivas nacionais e internacionais; de outro, preserva referências ligadas a povos originários, à memória das expedições e aos rios que atravessam a região.

Por que o município ganha atenção

A visibilidade de Campo Novo do Parecis resulta da soma de fatores. A produção agrícola coloca a cidade no mapa econômico de Mato Grosso. A história associada a Rondon e Roosevelt amplia seu valor como referência regional. A presença Haliti-Paresi acrescenta uma dimensão cultural própria. E o etnoturismo cria uma alternativa de divulgação do município que não depende apenas dos resultados das lavouras.

O desafio está em transformar essa atenção em desenvolvimento equilibrado. Para isso, o crescimento econômico precisa caminhar com planejamento urbano, qualificação dos serviços, conservação dos recursos naturais e respeito aos direitos dos povos indígenas. A história local mostra que Campo Novo do Parecis foi formado por diferentes ciclos de ocupação e produção. O futuro do município dependerá da capacidade de articular essas dimensões sem reduzir sua identidade a um único setor.

Com pouco mais de três décadas de emancipação política, Campo Novo do Parecis consolidou uma posição relevante no mapa de Mato Grosso. A cidade reúne memória, agricultura, cultura indígena e turismo em uma trajetória ainda em construção. É essa combinação que explica por que o município passou a receber atenção crescente dentro e fora do Estado.