A história de Araputanga está ligada ao processo de ocupação e desenvolvimento do oeste de Mato Grosso. O município, hoje integrado à dinâmica regional do estado, nasceu da combinação entre a presença indígena, os projetos de colonização promovidos pelo poder público, a chegada de agricultores e a abertura gradual de estradas, escolas e serviços.
Antes da formação do povoado, o território era habitado por povos indígenas Bororó, identificados em registros históricos também pela denominação de índios Cabaçais. A ocupação não indígena se intensificou a partir de iniciativas estaduais de colonização realizadas ao longo do século 20, especialmente a partir da década de 1940.
O processo resultou na criação de um núcleo urbano que recebeu diferentes nomes, desenvolveu atividades agrícolas e extrativistas e, posteriormente, conquistou sua emancipação política. Araputanga foi elevada à categoria de município pela Lei Estadual nº 4.153, de 14 de dezembro de 1979, após ter pertencido ao município de Mirassol d’Oeste.
Presença indígena e início da colonização
Os registros históricos reunidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e pela Prefeitura de Araputanga apontam que o território era ocupado tradicionalmente por povos Bororó. Essa presença antecede a formação do município e faz parte da história mais ampla das populações originárias do oeste mato-grossense.
A ocupação promovida por não indígenas ganhou força com o movimento de colonização planejada iniciado pelo governo estadual na década de 1940. Naquele período, foram criados órgãos como o Departamento de Terras e a Comissão de Planejamento e Produção, conhecida pela sigla CPP.
O modelo adotado previa a venda de terras a preços reduzidos. Em contrapartida, os compradores assumiam compromissos relacionados à abertura de estradas e à implantação de estruturas básicas para a ocupação. O governo também participava diretamente de algumas ações de colonização, favorecendo o surgimento de núcleos de povoamento em diferentes áreas.
Um dos pontos de atuação da CPP foi Rio Branco, local que passou a exercer influência sobre a formação de comunidades no entorno. A região entre os rios Jauru e Cabaçal, marcada por áreas de mata e solos considerados férteis, também passou a receber interessados na aquisição de terras.
As primeiras propriedades e os nomes do povoado
Entre 1953 e 1955, Nelson da Costa Marques conheceu e mediu áreas situadas entre os rios Jauru e Cabaçal. De acordo com o histórico municipal disponibilizado pelo IBGE, ele regularizou a posse de algumas terras localizadas em áreas conhecidas como Vale das Pitas, Vale do Bugre, Água Suja e Córrego Grande.
Entre 1957 e 1958, um grupo formado por imigrantes coreanos e japoneses adquiriu terras na região com o objetivo de implantar uma colonização planejada. A sede do projeto seria instalada às margens do córrego das Pitas, em uma área que recebeu o nome de Ituinópolis. A iniciativa, no entanto, não prosperou como previsto e parte dos participantes deixou o local.
Na sequência, Nelson da Costa Marques decidiu lotear uma área de sua propriedade. A primeira escritura pública relacionada ao processo foi lavrada em 26 de julho de 1958, em terreno adquirido por Alcides Vidal Salomé. Também aparecem entre os primeiros compradores Gabriel Villas Boas, Bertolino Micheles, Írio Mathias, Fumio Itai e Zé Cearense.
Em 16 de julho de 1958, Bertolino Micheles e Fumio Itai abriram uma picada até o córrego das Pitas. Eles instalaram um barraco às margens do curso d’água para iniciar a abertura da mata e o plantio de lavouras de subsistência. Mais tarde, o café passou a fazer parte das atividades agrícolas da região.
O núcleo recebeu diferentes denominações ao longo de sua formação. Depois de Ituinópolis, passou a ser conhecido como Gleba Paixão. Segundo a tradição registrada pela administração municipal, o nome refletia o vínculo dos pioneiros com as riquezas naturais encontradas no lugar.
Educação, religião e abertura de estradas
A organização da comunidade avançou gradualmente. A primeira escola começou a funcionar em 23 de março de 1961. Construída com tábuas, a unidade recebeu o nome de Escola Mista Rural da Gleba Paixão e atendia às famílias que viviam na área de colonização.
Naquele período, a circulação era difícil. A localidade contava com uma estrada que ligava a região de Tabuleta, em um trecho de aproximadamente 42 quilômetros. Tabuleta, por sua vez, ficava a cerca de 60 quilômetros de Cáceres, uma das principais referências urbanas do oeste mato-grossense.
A religiosidade também desempenhou papel na formação da comunidade. Em 1962, foi erguido o primeiro cruzeiro, a pedido do Frei Ênio Granja. Pouco depois, os moradores construíram uma capela simples, inicialmente formada por um rancho coberto com tabuinhas e sem paredes.
Outro marco ocorreu em 23 de maio de 1963, quando foi vendido o primeiro lote urbano. A transação simbolizou a consolidação do núcleo como povoado e contribuiu para a organização do espaço que posteriormente formaria a sede municipal.
A ligação rodoviária com Cáceres foi inaugurada em 29 de maio de 1970. A abertura da estrada reduziu o isolamento da comunidade e facilitou o deslocamento de pessoas, produtos e serviços. A inauguração foi celebrada pelos moradores com uma confraternização, segundo os registros históricos municipais.
O avanço dos serviços públicos
Durante a década de 1970, Araputanga passou a contar com estruturas que ajudaram a consolidar sua vida urbana. Em 1975, foi inaugurada a primeira escola estadual de primeiro grau, denominada João Sato. No ano seguinte, foi criado o primeiro jardim de infância, instalado na casa das Irmãs de Nossa Senhora do Monte Calvário.
Também em 1975, foi fundada a Cooperativa Agropecuária do Oeste de Mato Grosso, conhecida como Coopnoroeste. No início, a cooperativa atuava na compra, venda e no beneficiamento de arroz. Para iniciar as atividades, recebeu uma máquina de beneficiamento doada por uma sociedade beneficente da Bélgica.
A cooperativa passou a exercer influência na organização da produção regional. Em 1981, começou a coletar e industrializar leite, ampliando sua atuação junto aos pequenos e médios produtores. Com o tempo, os produtos da marca Lacbom ganharam circulação em diferentes partes do país, tornando a cooperativa uma referência da economia local.
A experiência da Coopnoroeste também demonstra como o desenvolvimento de Araputanga esteve relacionado à cooperação entre produtores e à criação de estruturas para agregar valor à produção rural. A agricultura, a pecuária e o comércio foram se articulando à medida que o município ampliava sua infraestrutura.
De distrito de Mirassol d’Oeste a município
O crescimento do povoado levou à sua transformação em distrito. A mudança ocorreu por meio da Lei Estadual nº 3.922, de 4 de outubro de 1977, quando Araputanga passou a integrar oficialmente o território de Mirassol d’Oeste.
A emancipação política veio dois anos depois. A Lei Estadual nº 4.153, de 14 de dezembro de 1979, elevou o distrito à categoria de município. A nova unidade administrativa foi desmembrada de Mirassol d’Oeste e inicialmente ficou constituída pelos distritos de Araputanga e Indiavaí.
Indiavaí permaneceu vinculado a Araputanga até 1986, quando foi desmembrado e elevado à condição de município pela Lei Estadual nº 4.898, de 13 de maio daquele ano. A partir de então, Araputanga passou a ter apenas o distrito-sede em sua composição administrativa.
A emancipação representou uma nova etapa para a comunidade. Com administração própria, o município passou a organizar de forma autônoma suas políticas públicas, serviços e ações de desenvolvimento. A criação do município também consolidou uma identidade política e social construída ao longo de décadas.
A origem do nome Araputanga
O nome Araputanga está relacionado à presença do mogno na região. Araputanga é uma denominação associada à árvore conhecida cientificamente como Swietenia macrophylla, espécie de madeira avermelhada encontrada em áreas da América Central e do Centro-Oeste brasileiro.
A referência à árvore revela a importância que os recursos naturais tiveram na formação econômica e simbólica do município. Antes da expansão das atividades agropecuárias, o extrativismo vegetal fazia parte da rotina dos moradores e influenciava a ocupação do território.
O nome também preserva uma ligação entre a cidade e a paisagem que marcou os primeiros anos da colonização. A mata, os rios, os córregos e as áreas de cultivo formavam o cenário em que as famílias construíram suas moradias e organizaram a comunidade.
Um município ligado à história regional
A trajetória de Araputanga ajuda a compreender a formação de vários municípios do oeste de Mato Grosso. A região foi marcada pela abertura de áreas de colonização, pela chegada de famílias de diferentes origens, pela construção de estradas e pela expansão de escolas, cooperativas e serviços públicos.
O desenvolvimento não ocorreu de forma imediata. Nos primeiros anos, os moradores enfrentaram dificuldades de transporte, comunicação e acesso a serviços básicos. A produção dependia do trabalho familiar, do aproveitamento dos recursos naturais e de uma infraestrutura ainda limitada.
Com a melhoria das vias de acesso e a criação de instituições locais, o povoado ganhou condições para crescer. A escola, a capela, o comércio, a cooperativa e os serviços públicos formaram uma rede que contribuiu para transformar a antiga Gleba Paixão em um município estruturado.
Hoje, a história de Araputanga permanece associada à memória dos povos indígenas, dos pioneiros, das famílias agricultoras e das instituições que participaram da formação da cidade. A emancipação de 1979 é um dos principais marcos dessa trajetória, mas o processo de construção do município começou décadas antes e continua sendo preservado por registros oficiais e pela memória da população.
Mais do que uma sequência de datas administrativas, a história de Araputanga revela como diferentes grupos contribuíram para a ocupação e a organização do oeste mato-grossense. A cidade se consolidou a partir da combinação entre território, trabalho, produção rural e criação de estruturas comunitárias, elementos que ainda fazem parte de sua identidade.
Fontes: histórico do IBGE sobre Araputanga, Prefeitura Municipal de Araputanga e Lei Estadual nº 4.153, de 14 de dezembro de 1979.








