A saúde pública em Mato Grosso ganhou atenção em 2026 com um conjunto de medidas voltadas à redução de filas, à ampliação da assistência especializada e ao fortalecimento da atenção primária. As ações anunciadas pelo governo estadual envolvem cirurgias eletivas, atendimento pré-hospitalar, contratação de profissionais, qualificação de equipes e programas de vigilância em saúde.
O movimento ocorre em um cenário no qual o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa atender uma população distribuída por um território extenso e com diferenças importantes entre as regiões. Nesse contexto, ampliar o acesso não depende apenas da abertura de novos serviços. Também exige melhorar a regulação, integrar municípios e Estado, manter equipes completas e garantir que o paciente consiga seguir o tratamento perto de onde vive.
Entre as principais frentes estão a segunda etapa do programa Fila Zero na Cirurgia, o programa Juntos pela Saúde Plena, o reforço das equipes estaduais e a criação de estratégias específicas para doenças como hanseníase e malária. As iniciativas indicam uma tentativa de combinar atendimento imediato com ações de prevenção e organização da rede.
Fila por cirurgias é uma das prioridades
A espera por consultas, exames e procedimentos especializados está entre os principais desafios do SUS. Em Mato Grosso, o governo estadual lançou em abril de 2026 a segunda etapa do Fila Zero na Cirurgia, com previsão de investimento de R$ 400 milhões e realização de 588 mil procedimentos eletivos ao longo do ano, segundo informações da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso.
O programa prevê a participação de municípios, consórcios intermunicipais, instituições privadas e unidades da rede estadual. A estratégia também inclui uma nova política de remuneração para determinados procedimentos, com o objetivo de ampliar o número de prestadores interessados em atender pacientes do SUS.
De acordo com a secretaria, a segunda fase foi estruturada em três eixos: novas propostas para a realização de procedimentos, credenciamento direto com unidades privadas e mutirões de cirurgias na rede estadual. A medida busca aumentar a capacidade de atendimento e reduzir o tempo de espera por procedimentos considerados eletivos, ou seja, aqueles que não são classificados como emergenciais.
Em outra atualização divulgada pelo governo estadual, o programa informou a realização de 226.421 procedimentos entre janeiro e 30 de maio de 2026. O número foi comparado a 55.614 procedimentos registrados no mesmo período de 2025. A secretaria também informou queda da média de espera de 77 para 45 dias no período analisado.
Os dados são do próprio governo estadual e devem ser acompanhados por informações sobre o tipo de procedimento, o perfil dos pacientes atendidos e a distribuição dos resultados entre as regiões de saúde. Esse detalhamento é importante para avaliar se a redução das filas ocorreu de forma homogênea ou se ficou concentrada em determinadas especialidades e municípios.
Atenção primária busca evitar agravamento de doenças
Enquanto os programas de cirurgias atuam sobre a demanda especializada, a atenção primária é responsável por organizar a porta de entrada do SUS. É nas unidades básicas de saúde que a população costuma buscar vacinação, acompanhamento de doenças crônicas, pré-natal, atendimento inicial, prevenção e encaminhamento para outros níveis de cuidado.
Em maio de 2026, o governo de Mato Grosso lançou o programa Juntos pela Saúde Plena, voltado ao fortalecimento da atenção primária nos municípios. A iniciativa prevê qualificação profissional, melhoria da infraestrutura, ampliação da cooperação entre Estado e prefeituras e acompanhamento de resultados, conforme informações da Secretaria de Estado de Saúde.
Cuiabá e Várzea Grande formalizaram a adesão ao programa em junho. A proposta é fazer com que a atenção primária exerça de maneira mais efetiva o papel de coordenadora do cuidado nas redes de saúde. Na prática, isso significa acompanhar o paciente, organizar os encaminhamentos e reduzir a fragmentação entre consultas, exames, internações e tratamentos.
O fortalecimento dessa área pode ajudar a diminuir a pressão sobre pronto-socorros e hospitais. Para isso, no entanto, é necessário que as unidades tenham profissionais suficientes, medicamentos, equipamentos, protocolos de atendimento e capacidade de encaminhamento. Sem esses elementos, a atenção básica corre o risco de funcionar apenas como ponto inicial de atendimento, sem conseguir acompanhar o cidadão ao longo do tratamento.
Urgência e emergência tiveram reorganização
Outra frente de atenção foi o atendimento pré-hospitalar. Em Cuiabá e Várzea Grande, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) passou a atuar de forma integrada ao Corpo de Bombeiros Militar após um termo de cooperação firmado em 2025.
Em audiência na Assembleia Legislativa, a Secretaria de Estado de Saúde informou que o tempo médio de resposta às chamadas de emergência caiu de 25 para 17 minutos. Também foi registrado aumento de 5.578 para 8.692 atendimentos no primeiro trimestre, na comparação entre 2025 e 2026.
O resultado divulgado se refere às duas cidades e ao período informado pela secretaria. Ele não representa, isoladamente, a situação de toda a rede de urgência do Estado. A avaliação mais ampla depende de dados sobre outras regiões, disponibilidade de ambulâncias, ocupação hospitalar, tempo de espera para transferência e capacidade de atendimento após a chegada do paciente à unidade de saúde.
Contratação tenta reforçar as equipes do SUS
A disponibilidade de profissionais é um dos fatores que influenciam diretamente a qualidade do atendimento. Em maio, o governo estadual anunciou a nomeação de 133 aprovados no concurso da Secretaria de Estado de Saúde. Segundo o órgão, com essas nomeações, o número de novos servidores chamados no concurso chegou a 775.
O concurso também foi prorrogado por dois anos, até 8 de julho de 2028, para cargos técnicos e de nível superior da área da saúde. A medida permite novas convocações dentro do prazo de validade, conforme a necessidade administrativa e a disponibilidade de vagas.
Na esfera federal, o Ministério da Saúde informou em agosto que Mato Grosso contava com 13 médicos especialistas em atividade e receberia mais 16 profissionais. O estado também tinha 583 residentes em saúde com bolsas financiadas pelo ministério, segundo a pasta.
A distribuição dos profissionais é um ponto decisivo. A concentração de especialistas em cidades maiores pode manter dificuldades de acesso em municípios distantes dos principais centros urbanos. Por isso, a contratação precisa ser acompanhada de políticas de fixação, estrutura adequada de trabalho e organização regional dos serviços.
Hanseníase continua entre os problemas prioritários
A hanseníase recebeu uma estratégia específica em 2026. A Secretaria de Estado de Saúde criou o Plano Estratégico de Enfrentamento da Hanseníase em Mato Grosso, com ações integradas de atenção, vigilância, saúde digital e qualificação profissional.
O plano estabelece prazo de 180 dias para a implementação das medidas e prevê a capacitação de profissionais da atenção primária, da vigilância, de farmácias e de laboratórios. A Escola de Saúde Pública de Mato Grosso informou que a formação poderá alcançar 1.280 profissionais até maio de 2028.
A doença exige diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento dos contatos. Quando identificada tardiamente, pode provocar incapacidades físicas e ampliar o impacto social sobre o paciente. Por isso, a atuação das equipes municipais, a busca ativa e a redução do estigma são elementos importantes para o controle.
O estado também promoveu oficina de enfrentamento à malária, com participação de profissionais de 12 municípios. A ação reforça a necessidade de manter a vigilância sobre doenças relacionadas às características ambientais, ao deslocamento da população e às condições de moradia e trabalho.
Saúde digital e regionalização entram na agenda
O uso de tecnologia aparece como outra aposta para melhorar a gestão. Um convênio entre a Secretaria de Estado de Saúde e a Universidade Federal de Mato Grosso prevê o desenvolvimento de soluções tecnológicas para modernizar processos da saúde pública.
Ferramentas digitais podem contribuir para integrar dados, acompanhar filas, melhorar a regulação e apoiar decisões das equipes. Também podem facilitar o acesso do cidadão a documentos e informações, desde que sejam adotadas medidas de segurança, proteção de dados e inclusão das pessoas que têm dificuldade para utilizar serviços digitais.
A regionalização é igualmente necessária. O atendimento especializado nem sempre está disponível em todos os municípios, o que exige pactuação entre cidades, transporte sanitário, regulação eficiente e financiamento compartilhado. Resoluções da Comissão Intergestores Bipartite mostram que municípios de diferentes regiões receberam recursos estaduais para custeio, manutenção, atenção básica, média complexidade e aquisição de ambulâncias.
Esse modelo pode ampliar o acesso, mas depende de planejamento contínuo. O repasse de recursos, por si só, não garante a oferta de serviços. É preciso acompanhar a execução, estabelecer metas verificáveis e divulgar os resultados para a população e os órgãos de controle social.
Desafio é transformar anúncios em atendimento contínuo
As medidas anunciadas colocam a saúde pública em Mato Grosso no centro do debate sobre investimentos, gestão e acesso. A redução de filas, o reforço de equipes e a expansão da atenção primária podem produzir efeitos positivos para os usuários do SUS, especialmente quando as ações são coordenadas entre os diferentes níveis de governo.
O principal desafio é transformar programas e investimentos em atendimento regular, com qualidade e continuidade. Isso envolve garantir que o paciente consiga marcar consultas, realizar exames, receber diagnóstico, iniciar o tratamento e retornar para acompanhamento quando necessário.
Também será necessário observar os resultados ao longo do tempo. Indicadores como tempo de espera, número de procedimentos concluídos, distribuição regional dos atendimentos, taxa de absenteísmo, cobertura da atenção básica e disponibilidade de profissionais ajudam a medir o efeito real das políticas públicas.
Em Mato Grosso, a atenção à saúde pública combina respostas emergenciais para as filas com medidas estruturais de prevenção, qualificação e organização da rede. O avanço dependerá da capacidade de manter o financiamento, aperfeiçoar a integração entre Estado e municípios e garantir transparência sobre metas, gastos e resultados.








