sábado, 24 de outubro de 2026
SAÚDE

Saúde mental ganha espaço nas cidades de Mato Grosso com expansão da rede pública

A saúde mental passou a ocupar espaço mais amplo nas políticas públicas de Mato Grosso, com expansão dos Centros de Atenção Psicossocial, novas propostas de unidades e ações voltadas à prevenção do suicídio, ao atendimento infantojuvenil e à integração entre saúde, educação e assistência social.

A saúde mental em Mato Grosso vem ganhando espaço nas políticas públicas municipais e estaduais, com a ampliação dos serviços de atenção psicossocial, a criação de novas propostas de atendimento e o fortalecimento de ações de prevenção ao suicídio. O movimento envolve cidades de diferentes regiões e inclui iniciativas voltadas a crianças, adolescentes, adultos e pessoas que enfrentam problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas.

Dados divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde indicam que Mato Grosso conta com 53 unidades de Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, mantidas pelas prefeituras em municípios com mais de 15 mil habitantes. A estrutura reúne 37 CAPS I, dois CAPS II, um CAPS III, cinco CAPS voltados ao atendimento de pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas e sete unidades destinadas ao público infantojuvenil. (saude.mt.gov.br)

Os CAPS são considerados uma das principais portas especializadas da Rede de Atenção Psicossocial. O atendimento busca evitar que o cuidado se limite à internação hospitalar e propõe acompanhamento contínuo, convivência comunitária, participação da família e articulação com outros serviços públicos.

Rede ainda é desigual entre os municípios

A expansão da rede ocorre em um estado com grandes distâncias territoriais e diferenças na capacidade de atendimento dos municípios. A edição de fevereiro de 2025 do levantamento “Saúde Mental em Dados”, do Ministério da Saúde, apontou que Mato Grosso tinha 50 municípios considerados elegíveis para receber CAPS. Desse total, 34 possuíam unidades habilitadas, enquanto 16 ainda não contavam com esse tipo de serviço reconhecido na base federal. (gov.br)

Os números utilizam critérios e períodos de referência específicos e não devem ser comparados diretamente com o levantamento estadual de 53 unidades. A diferença pode estar relacionada às bases administrativas, aos tipos de serviço contabilizados e ao momento de atualização dos registros. Ainda assim, os dados mostram que a presença da atenção psicossocial não é uniforme em todo o território mato-grossense.

Em cidades menores, a oferta de atendimento especializado pode depender da articulação regional, do deslocamento dos usuários e da capacidade da atenção básica para identificar situações de sofrimento psíquico. Nesses casos, unidades de saúde da família, ambulatórios, hospitais gerais, serviços de assistência social e escolas também participam do acompanhamento.

Novas unidades entram no planejamento

O fortalecimento da rede aparece em propostas recentes de infraestrutura. Em março de 2025, a Comissão Intergestores Bipartite de Mato Grosso aprovou a solicitação de proposta para a construção de um CAPS I em Chapada dos Guimarães, dentro do processo de seleção do Novo Programa de Aceleração do Crescimento na área da saúde. (saude.mt.gov.br)

Também foi aprovada proposta semelhante para São José dos Quatro Marcos. A iniciativa prevê a construção de um CAPS I no município, igualmente no âmbito do Novo PAC Saúde 2025. A aprovação da proposta, porém, representa uma etapa administrativa e não equivale, por si só, à conclusão da obra ou ao início imediato do funcionamento do serviço. (saude.mt.gov.br)

A abertura de novas unidades é uma das frentes para ampliar o acesso, mas a efetividade da política depende também de equipes completas, continuidade do financiamento, integração com a atenção básica e capacidade de atender demandas de diferentes níveis de complexidade.

Prevenção ao suicídio amplia debate público

A prevenção ao suicídio passou a ocupar posição central nas discussões sobre saúde mental no estado. Segundo levantamento da Secretaria de Estado de Saúde, Mato Grosso registrou 1.873 notificações de violência autoprovocada e 315 óbitos classificados como violência autoprovocada intencionalmente em 2024. (saude.mt.gov.br)

As notificações são registros utilizados pelos serviços de saúde para comunicar ocorrências às autoridades sanitárias. Elas não representam necessariamente o total de casos, já que a identificação e o preenchimento dependem da rede de atendimento. Mesmo assim, os dados ajudam a dimensionar a necessidade de ações permanentes de prevenção, acolhimento e acompanhamento.

Em setembro de 2025, a Secretaria de Estado de Saúde promoveu um encontro com gestores e profissionais para discutir a prevenção ao suicídio. A programação reuniu representantes das áreas de saúde, educação, assistência social, Justiça, Ministério Público, Defensoria Pública e organizações ligadas à proteção de crianças e adolescentes. (saude.mt.gov.br)

A participação de diferentes setores reflete uma mudança na forma de tratar o tema. Situações de sofrimento mental podem envolver violência, uso abusivo de substâncias, conflitos familiares, dificuldades escolares, desemprego, isolamento social e outras condições que exigem resposta articulada.

Atendimento infantojuvenil exige ação integrada

O cuidado com crianças e adolescentes é uma das áreas que mais demanda integração entre políticas públicas. Os serviços especializados para esse público fazem parte da rede de CAPS, mas o acompanhamento também depende da atuação de escolas, unidades básicas de saúde, assistência social e órgãos de proteção.

Em Água Boa, uma lei municipal sancionada em agosto de 2025 instituiu um programa de promoção à saúde mental nas escolas da rede pública. A medida foi vinculada à política nacional de atenção psicossocial nas comunidades escolares e à legislação que prevê serviços de psicologia e assistência social na educação básica. (amm.diariomunicipal.org)

A iniciativa mostra como municípios vêm tentando levar o debate para além dos serviços de saúde. A escola pode contribuir para a identificação de sinais de sofrimento, para a prevenção de violências e para o encaminhamento de estudantes e famílias, mas não substitui o atendimento clínico ou especializado quando ele é necessário.

CAPS buscam reduzir isolamento e estigma

Além do atendimento individual, os CAPS desenvolvem atividades coletivas, oficinas, acompanhamento familiar e ações de reinserção social. A proposta é oferecer cuidado em liberdade e manter a pessoa vinculada ao território em que vive, evitando que o tratamento seja marcado apenas por internações ou afastamento da comunidade.

Em Mato Grosso, ações de promoção da saúde mental também têm buscado ocupar espaços públicos e aproximar os usuários dos serviços da população. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, atividades realizadas durante a campanha do Setembro Amarelo tiveram, entre seus objetivos, reduzir o estigma associado aos transtornos mentais e ampliar a participação social dos usuários dos CAPS. (saude.mt.gov.br)

O estigma ainda é um dos obstáculos para o acesso ao cuidado. O medo de julgamento pode fazer com que pessoas adiem a busca por ajuda, escondam sintomas ou interrompam o tratamento. Por isso, campanhas públicas e ações educativas precisam ser acompanhadas de serviços capazes de acolher a demanda gerada.

Financiamento e continuidade são desafios

A expansão da saúde mental também depende de recursos permanentes. Em 2023, a Secretaria de Estado de Saúde destacou a ampliação do financiamento estadual para serviços da área e indicou a necessidade de reforçar a estrutura para os anos seguintes. (saude.mt.gov.br)

O financiamento, porém, é apenas uma parte do problema. A rede precisa manter profissionais, garantir medicamentos quando indicados, organizar fluxos de encaminhamento e estabelecer comunicação entre os serviços. Também é necessário acompanhar os resultados, identificar filas e avaliar se os usuários conseguem iniciar e manter o cuidado.

Outro ponto é a diferença entre criar um serviço e assegurar seu funcionamento regular. Uma unidade pode estar prevista em uma política ou em um projeto de investimento, mas o atendimento depende da conclusão da obra, da habilitação, da contratação das equipes e da definição de rotinas de atendimento.

O que muda para a população

Para os moradores, a ampliação da atenção psicossocial pode significar maior possibilidade de buscar ajuda no próprio município ou em uma cidade de referência mais próxima. O acesso costuma começar pela unidade básica de saúde, que pode orientar o encaminhamento conforme a necessidade apresentada. Em situações de crise, a orientação deve ser buscada nos serviços de urgência e emergência da rede local.

Os CAPS atendem públicos e situações diferentes. Há unidades voltadas ao acompanhamento geral de pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, serviços específicos para álcool e outras drogas e centros destinados a crianças e adolescentes. A oferta, os horários e os critérios de acesso variam conforme o município e o tipo de serviço.

Em caso de risco imediato de suicídio ou de violência, a pessoa não deve ser deixada sozinha. Familiares ou responsáveis devem procurar um serviço de emergência ou acionar os canais públicos disponíveis na cidade. A busca por atendimento profissional é recomendada mesmo quando os sinais parecem passageiros ou quando a pessoa demonstra resistência em falar sobre o que está vivendo.

O avanço da saúde mental nas cidades de Mato Grosso revela uma mudança de prioridade, mas também expõe a necessidade de consolidar a rede. A expansão dos CAPS, a prevenção ao suicídio, o cuidado infantojuvenil e a integração com escolas e assistência social indicam caminhos já em andamento. O desafio é transformar essas iniciativas em atendimento contínuo, acessível e distribuído de forma mais equilibrada entre as regiões do estado.